Radar Fashion

Depois de duas décadas equilibrando a marca própria com consultorias para grandes nomes da moda brasileira, Gabriela Sakate agora se divide entre São Paulo e França enquanto reconstrói sua história em modo lento

POR KANUCHA BARBOSA

Discreta, Gabriela Sakate passou 26 anos construindo uma carreira que, na maior parte do tempo, ficou deliberadamente fora dos holofotes. Fez coleções inteiras para marcas conhecidas, desfilou no exterior, saiu na imprensa internacional – e, mesmo assim, preferia o chão de fábrica à vitrine. Hoje, aos poucos, ela está mudando isso.

A história começa antes da faculdade. Filha de pai japonês e mãe brasileira (sua referência de estilo dentro de uma família que ela define como "de arteiros"), Gabriela cresceu acompanhando a mãe em idas à costureira, vendendo cadernos de medidas, entendendo como as roupas são feitas. Com 5 anos, já desenhei modelos para a mãe usar. Aos 15, eu estava trabalhando.

O primeiro emprego veio por meio de um amigo da família que desenvolvia projetos para marcas de aviamentos. Ele a levava às fábricas, a deixava observar modelagens, a expunha ao processo inteiro. "Eu sempre fui muito curioso. Então, quando ingressei na faculdade, já sabia bastante coisa", contou à ForbesLife Fashion.

A carreira deu a primeira guinada cedo. Ao entrar para o Senac, aos 17 anos, Gabriela se inscreveu em um concurso elaborado como parceria entre o São Paulo Fashion Week e a escola parisiense ESMOD. Ela ganhou o primeiro lugar e uma bolsa para estudar em Paris. Depois de Paris, foi para o Central Saint Martins, em Londres.

Ao voltar ao Brasil, fez inscrição, quase por impulso, em outro concurso, desta vez da Casa de Criadores – "eu era muito a garota dos concursos", admite – e ganhou de novo. O prêmio foi desfilar duas vezes por ano como estilista da plataforma. De 2010 a 2014, Gabriela Desfilou na Casa de Criadores e, em paralelo, integrado ao Texbrasil – programa de exportação da indústria da moda brasileira desenvolvido pela Abit em parceria com a Apex-Brasil, que funciona como incubadora para novos estilistas – e foi levado a passarelas em Nova York, Paris, Londres, Portugal, Colômbia e Japão.

Em paralelo, nunca parou de trabalhar para outras marcas – Cris Barros, Flavia Aranha, Le Soleil d'Été, Lilly Sarti, entre outras –, sempre na criação, às vezes à frente de equipes inteiras de estilo.

O formato era de consultoria: alguns dias por semana, porta fechada ao sair, e de volta às próprias coisas.

Gabriela atribuiu essa adaptabilidade a algo que chama, com certa graça, de "lado japonês", uma descrição que a deixa dentro das marcas sem nunca se dissolver nelas. Já a marca própria funcionava como um reservatório – o que não cabia nos outros ia para lá.

A formação em Paris e em Londres deixou heranças diferentes e complementares. Na ESMOD, o ensino era rigoroso, histórico, quase reverencial: "antes de desconstruir uma camisa, você aprende a origem do espartilho". Na Central Saint Martins, a lição foi outra: a de não se limitar ao que foi solicitado, de sair da caixa e se apropriar de todos os estímulos ao redor. Os dois juntos formaram o par que até hoje definem seu trabalho: rigor técnico e liberdade criativa como faces da mesma moeda.

Em 2014, uma série de acontecimentos pessoais levou a uma pausa nos desfiles. Por quase uma década, continua trabalhando para outras marcas. O que manteve sua própria etiqueta viva nesse período foi uma única bolsa: a Marion, modelo com alça comprida que ela vende desde 2012 sem interrupção.

A volta às origens começou a tomar forma em 2024, quando Gabriela foi à França com uma coleção de peças únicas feitas com tecidos preciosos – rendas e toalhas dos séculos 18 e 19 – e lançou a Shiu, uma bolsa inspirada nos bentôs japoneses que homenageia a seu bisavô, Shiu Sakate. Vendeu tudo o que levou. No mesmo ano, conheceu o namorado francês e passou a dividir a vida entre São Paulo e sua casa na região de Landes, próximo aos Pireneus.

Hoje, Gabriela produz cada Shiu sozinha, do início ao fim – costura, montagem, embalagem. A pesquisa partiu do origami, das embalagens de papel e dos bentôs, e foi feita em uma estrutura em cartonagem forrada com couro legítimo, metais personalizados e forro em algodão – feita à mão. Cada bolsa leva em média quatro dias para ficar pronta. As clientes esperam um mês pelo pedido e nunca reclamaram. "Elas sabem que sou eu que faço, que é superartesanal. É especial."

Atualmente, a marca própria está ganhando estrutura: site em construção, busca por mais parceiros de produção, vontade de fazer eventos com as coleções que vem acumulando. Há tecidos comprados em uma viagem a Marrocos esperando mudanças de peças e dois ateliês, um em São Paulo e outro na França, com muitos pedidos. Gabriela vai descobrindo o futuro aos poucos, em seu ritmo discretamente próprio.

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